Esta palestra de Aubrey de Grey é uma das mais marcantes no campo da longevidade moderna, e também uma das mais instigantes. De Grey, um biogerontologista britânico, presidente da LEV Foundation e fundador da SENS Research Foundation, dedicou três décadas a uma tese específica: o envelhecimento é um problema de engenharia, e sua solução é apenas uma questão de tempo e dinheiro. Mas antes de falar sobre ciência, ele quer discutir algo completamente diferente: por que a sociedade não quer nem ouvir sobre isso. Ele chama esse fenômeno de Pro-ageing Trance, um transe pró-envelhecimento, e, segundo ele, este é o verdadeiro obstáculo, não a ciência.
Sobre o que é o vídeo
De Grey começa com uma pergunta filosófica simples: por que, quando se fala em doenças cardíacas, câncer ou Alzheimer, todos concordam que precisam ser curadas, mas quando se fala no próprio envelhecimento, a causa unificadora por trás de todas essas doenças, encontramos resistência, ironia ou indiferença? A resposta dele: a sociedade está em um transe mental, um mecanismo de defesa psicológico que permite aos humanos viver com a consciência de que envelhecerão e morrerão. Esse transe, ele argumenta, é excelente enquanto não há alternativa. Mas, no momento em que há uma chance tecnológica de intervir, o transe se torna o maior inimigo da pesquisa. As pessoas não buscam financiamento para uma medicina que prolongue a vida por décadas, porque até pensar nisso parece um pouco perturbador.
Depois de estabelecer o argumento psicológico, De Grey passa para seu roteiro técnico, o SENS, sigla para Strategies for Engineered Negligible Senescence, Estratégias para a Senescência Insignificante Projetada. A lógica por trás disso: em vez de tentar interromper todos os processos biológicos que geram danos, basta reparar o próprio dano a cada poucos anos, mantendo assim o corpo em um estado funcional por um período ilimitado. De Grey identifica sete categorias de danos celulares que se acumulam com a idade: mutações no núcleo da célula, mutações nas mitocôndrias, acúmulo de resíduos dentro das células, resíduos entre as células, perda de células que não se regeneram, células zumbis que se recusam a morrer e ligações cruzadas entre proteínas. Para cada uma, ele apresenta a intervenção teórica que a repararia. Ele insiste: esta lista está fechada. Tudo o que é necessário é desenvolver ferramentas para reparar esses sete tipos de danos, e o envelhecimento será solucionável.
Na parte final da palestra, De Grey retorna à filosofia. Ele fala sobre por que o público se opõe intuitivamente à ideia de longevidade extrema, sobre os argumentos previsíveis como superpopulação, desigualdade ou tédio, e responde a cada um deles. Sua linha principal: se você oferecesse a uma pessoa de 30 anos a saúde e a energia de alguém de 30 anos por décadas, ela concordaria imediatamente. A resistência só surge quando se fala nisso no contexto de mais 30 anos de vida. Ou seja, a resistência não é à saúde, é à ideia de uma vida longa. E isso, segundo ele, é exatamente o transe em ação.
Por que vale a pena assistir
Esta é uma palestra obrigatória para todos que se interessam por longevidade não apenas como ciência, mas também como filosofia. A maior parte do conteúdo que surge hoje sobre envelhecimento foca em estudos específicos, sirtuínas, NMN, senolíticos, Yamanaka, mas muito pouco aborda a questão mais fundamental: por que a sociedade não gasta o mesmo orçamento nisso que gasta na guerra contra o câncer? De Grey é o comunicador mais claro dessa pergunta, e também da resposta.
O estilo de De Grey é desafiador. Ele não se gaba nem tenta vender um suplemento, ele apenas defende uma única tese consistentemente há 30 anos. Parte da comunidade científica ainda acha que ele é exagerado, mas até seus críticos admitem que a estrutura das sete categorias de danos dele se tornou um cânone na área, e que ele é em grande parte responsável por a longevidade ter se tornado uma disciplina científica legítima, em vez de algo marginal. Mesmo que você não concorde com cada palavra que ele diz, depois de 50 minutos com ele, a maneira como você pensa sobre o envelhecimento será diferente. E esse, no final das contas, é o verdadeiro objetivo desta palestra.
Boa diversão!
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